A sexta-feira foi marcada por uma reversão brusca de sentimento no mercado brasileiro. O Ibovespa, que chegou a renovar um recorde histórico intradiário aos 165 mil pontos, não sustentou o movimento e acabou encerrando o pregão com queda de 4,31%, aos 157.369 pontos — a pior queda diária desde fevereiro de 2021. Com isso, o índice fechou a semana acumulando recuo de 1,07%, embora ainda registre valorização superior a 30% no ano.
O estopim do movimento veio de Brasília: a confirmação de que o senador Flávio Bolsonaro seria o pré-candidato à Presidência em 2026. A notícia foi interpretada como um racha dentro da oposição e uma sinalização de que a disputa eleitoral tende a se fragmentar, afastando a possibilidade de um candidato mais alinhado ao centro e comprometido com uma agenda fiscal mais austera. A leitura fiscal deteriorada foi suficiente para desencadear uma onda de aversão ao risco, que atingiu praticamente todos os setores da Bolsa.
Os bancos sofreram de maneira mais aguda com a reprecificação do risco, já que são altamente sensíveis a variações de percepção fiscal. As ações de Banco do Brasil despencaram mais de 7%, seguidas por quedas de quase 6% no Bradesco e mais de 4,5% no Itaú. O varejo, tradicionalmente penalizado por movimentos bruscos de juros, também derreteu; a Magazine Luiza caiu quase 10%. Até mesmo as gigantes de commodities, que frequentemente funcionam como porto seguro, não escaparam: Vale recuou mais de 2%, enquanto Petrobras caiu mais de 3,5%.
Olhar Global: Wall Street avança com inflação PCE dentro do esperado
Enquanto o Brasil vivia um pregão de forte turbulência, Nova York seguiu em direção oposta e encerrou o dia em tom positivo. O foco dos investidores norte-americanos esteve na divulgação do PCE, indicador preferido de inflação do Federal Reserve. O dado veio alinhado às expectativas: alta mensal de 0,3% e acumulado anual de 2,8%. Essa leitura reforçou, sem alterar significativamente, a forte convicção do mercado de que o Fed irá cortar juros na reunião da próxima semana.
A reação em Wall Street foi moderadamente otimista, com o Dow Jones subindo 0,22%, o S&P 500 avançando 0,19% e o Nasdaq fechando em alta de 0,31%. No mercado de Treasuries, porém, houve movimento de cautela: os juros de longo prazo voltaram a subir, com o rendimento das notas de 10 anos encerrando em 4,14%. O comportamento misto reforça que o mercado acredita no corte agora em dezembro, mas permanece atento à trajetória de 2026.
No cenário asiático, a China divulgou números positivos de exportações, enquanto o Japão surpreendeu negativamente com uma contração de 2,3% no PIB do terceiro trimestre. No petróleo, a tensão geopolítica entre Rússia e Ucrânia sustentou os preços do Brent na casa de US$ 63,75 por barril.
Juros Futuros disparam: risco fiscal explode e curva abre mais de 50 pontos-base
Se a queda da Bolsa foi violenta, o movimento dos juros futuros foi ainda mais expressivo. A curva inteira abriu de maneira abrupta, refletindo o aumento do prêmio de risco fiscal. Os vencimentos longos chegaram a subir mais de 50 pontos-base, em um ajuste considerado técnico, mas também emocional, diante de um evento político inesperado.
O DI para janeiro de 2029, por exemplo, saltou de 12,64% para 13,20% em apenas um pregão. Esse movimento traduz o receio de que o próximo governo enfrente um cenário mais difícil para consolidar contas públicas, além de aumentar a probabilidade de manutenção dos juros elevados por mais tempo. Para os investidores institucionais, especialmente RPPS, o efeito foi negativo na marcação a mercado dos títulos de renda fixa — com os ativos atrelados à inflação de longo prazo, como o IMA-B 5+, registrando queda superior a 1,6%.
Dólar tem maior salto desde 2021 e fecha em R$ 5,43
O mercado de câmbio também reagiu fortemente ao evento político. O dólar comercial disparou 2,28%, encerrando a sessão em R$ 5,431 — o maior salto diário desde 2021. O movimento foi amplamente explicado pela busca por proteção e pelo aumento da demanda por liquidez em dólar, num contexto de incerteza fiscal e eleitoral. Na semana, a moeda acumulou valorização de 1,82%.
Cenário Internacional: Semana de Super Quarta domina o radar global
Os mercados iniciam esta semana com atenção total voltada para a decisão de juros do Federal Reserve. Segundo projeções do CME Group, há cerca de 87% de probabilidade de corte de 0,25 ponto percentual, embora dirigentes do Fed continuem divididos. A votação na próxima quarta-feira pode não ser unânime, especialmente após o PCE de setembro vir levemente acima do esperado na comparação mensal.
A China continua divulgando indicadores importantes — hoje, dados de comércio superaram as expectativas — enquanto o Japão enfrenta sinalizações claras de desaceleração. No petróleo, a ausência de avanços concretos nas negociações de paz entre Rússia e Ucrânia mantém a commodity sustentada.
Cenário Doméstico: Mercado monitora recuo de Flávio e espera o Copom
Após o pânico da sexta-feira, o mercado brasileiro abre a semana avaliando o recuo de Flávio Bolsonaro, que sinalizou no domingo a possibilidade de desistir da candidatura. A declaração, acompanhada de elogios a Tarcísio de Freitas como “principal nome do nosso time”, pode reduzir parte da incerteza gerada no fim da semana.
No entanto, a volatilidade deve permanecer elevada até a Super Quarta, quando o Banco Central decide a taxa Selic. O mercado espera manutenção em 15%, mas o tom do comunicado será crucial para entender se a porta para um corte em janeiro permanece aberta.
Além disso, na quarta-feira o IBGE divulgará o IPCA de novembro, indicador chave para calibrar expectativas inflacionárias. No campo político, um novo foco de tensão surgiu com a decisão do Senado de pautar a PEC do Marco Temporal na véspera do julgamento do STF, elevando o ruído institucional.
E agora? A semana da Super Quarta começa com Focus e dados dos EUA
O Boletim Focus desta segunda-feira deve refletir o impacto imediato da turbulência da sexta-feira nas projeções para Selic, câmbio e inflação. A semana também trará indicadores relevantes nos EUA, incluindo despesas pessoais, bens duráveis e expectativas de inflação. Tudo isso prepara o terreno para a Super Quarta — quando Fed e Copom tomarão decisões que devem definir o rumo do mercado até o fim do ano.
Agenda Econômica de Hoje
- Boletim Focus – 8h25
- Produção de Veículos (Brasil) – 10h00
- PCE e Bens Duráveis (EUA) – 12h00
- Expectativas de Inflação ao Consumidor (EUA) – 13h00